O RIO TEJO

TEJO, COMO TE VEJO
Quem desenhou na paisagem este rio
de margens plenas de primavera...
quem o encaminhou até ao oceano
tal como aqui o vejo...quem lhe deu o denominação: Tejo...
Quem lhe abriu em Ródão as portas deste país
e em manhãs agrestes ao longo do seu percurso
construiu castelos com as muralhas embebidas de musgo...
Ele traz até à ampla foz a sua seiva e a dos seus irmãos menores,
e nela, estrada de doce água,
em musical sossego e sem perda de norte,
cascos flutuantes impelidos pelo vento, vagarosamente,
uniram longas distâncias em tempos de nós já ausentes.
O esplendor da sua água não encobre a poeira do destino
nem a luminosidade das suas margens fulgurantes
onde se cultiva o sustento da nossa existência.
Quando enaltecido, não sufoca as palavras e os cânticos
porque nele, tal como em nós, não habita o esquecimento.
Havemos de o cantar até ao sol-pôr.
Com a sua fecundidade e luz completam-se as palavras e os dias
sem que se anulem as marcas no relógio em que o Sol,
brilhante como ele, assinala o tempo e a vida.
Só ele compreende e preserva os seus velhos segredos,
e, lembrado de ser uma longa espada na terra e no tempo,
não ofende quem o procura
e em todos os sentidos acarinha quem dele se afeiçoa.
O Sol reflecte-se na sua água e as estrelas admiram-no.
O seu estuário foi santuário marítimo e leito acolhedor
das naus que nas portas do infinito procuraram outros mundos.
Ele, sóbrio, feliz e quedo, junto de nós se deixou ficar.
Quantos heróis nele navegaram...
Quantos sacrificados dele se sustentaram...
Nesta margem onde estou deslumbro-me:
- Como é vasto este plano de água
onde ele se junta ao mar.
Mar. 2010 – 1390
Fernando Faria
Olhares sobre o Rio Tejo
Vem de mansinho, calmo e sereno,
Escorre no seu leito verdejante,
Como se fora pequeno,
Mais adiante, revolta-se,
Envolve-se com as suas margens
Galgando-as furiosamente,
Implacável.
Transpõe os seus limites,
Invade casas, ruas, leva à sua frente,
Vidas e bens, gente,
O seu rugido invade tudo à sua volta,
Deixando os corações em sobressalto.
Por onde passa,
Deixa um rasto de dor,
Lama,
Tristeza,
Mágoa.
No dia seguinte, ressurge
Lindo, majestoso,
Inofensivo como um gatinho,
Parece ronronar no seu leito,
E, calmamente segue o seu curso,
Retomando o seu destino,
Permitindo que os que lhe sobreviveram
Se alimentem dele, das suas águas.
Dando vida,
É o Tejo.
Selma Santos
Comments (0) 02.03.2010. 11:41
Alburrica

"Quem vem atravessa o rio."
Na ponta de terra, entrando no rio, erguem-se, simultaneamente altaneiros e humildes, os Moinhos de Alburrica.
Parecem emergir das águas calmas do Tejo.
A distância engana o olhar, e eles surgem-nos como se fossem pequenos.
Quando o barco se aproxima, quase que é possível tocar-lhes.
Desfaz-se a ilusão do olhar.
Afinal, são grandes.
As suas paredes, as suas mós, parecem contar a sua história.
A história de um povo que aqui viveu, trabalhou, lutou.
É fácil imaginar as pessoas que ali viviam.
O moleiro a executar, diariamente a sua rotina.
As mulheres, ombreando com os homens,
Ajudam a carregar os sacos de cereais.
As crianças a brincar na praia à volta dos Moinhos.
As ondas provocadas pelo navegar do barco,
Morrem,
Lentamente na praia.
De noite, a imagem é deslumbrante.
Os moinhos emanam uma mensagem quase mística.
As luzes desenham um caprichoso bailado de cor,
Reflectem-se nas águas do rio,
Formando um desenho quase mágico
Enchendo de alegria,
Inexplicável, aqueles que ali pousam o olhar.
Assolam-nos sentimentos difusos,
Paz, beleza, tranquilidade.
E a sensação, mesmo antes de o barco atracar,
De que chegámos a casa.
Alburrica é assim.
Quando avistamos os Moinhos,
Estamos, finalmente, em casa!
Selma Santos,
Comments (2) 31.12.2009. 00:44
